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segunda-feira, 23 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
domingo, 1 de agosto de 2010
Sobre ídolos e heróis
Não é fácil ser um ídolo! Levei um fim de semana para perceber isso. Antes que comece a crucificação (embora eu também não seja Jesus Cristo), já adianto que não estou falando de experiência própria em tentar a fama. Tive esse insight durante a Copa Davis de tênis, na qual trabalhei como assessor de imprensa por um longo mês até o fim de semana em questão.
Contextualizando: entre os dias 7 e 9 de maio a maior competição de equipes de tênis do mundo teve uma etapa realizada em Bauru, cidade na qual moro atualmente. Como trabalho em uma agência de comunicação, acabei ficando com uma parte da assessoria do evento, que teve a participação de grandes jogadores brasileiros, entre eles Thomaz Bellucci, atual 26º do ranking da ATP e número 1 do Brasil.
Bellucci reúne todas as qualidades que fazem dele um bom jogador, não é à toa que aos 22 anos já faturou mais de um milhão de dólares em prêmios. Contudo, tem alguma coisa nele que não encaixa com o perfil de um ídolo, coisa que o Brasil espera de um grande desportista. Aliás, coisa rara hoje em dia, acho que um dos últimos a honrar esse título foi Gustavo Kuerten, que também esteve em Bauru na Copa Davis e foi o motivo deste texto.
Tive contato com Guga por duas ou três vezes durante o final de semana, numa delas para dar recado do seu amigo Antonio Barbosa, ex-técnico da seleção brasileira feminina de basquete, que queria reencontrá-lo. Guga é sempre simpático, seja com os torcedores seja com a imprensa, mesmo disfarçando uma possível timidez. Já com Bellucci essa empatia não acontece, e percebe-se nele um desdenho para as coisas ao seu redor.
Quando me dei conta desse abismo, fiquei encucado com essa relação de herói e ídolo, que mantemos e esperamos de uma pessoa que nos dá orgulho simplesmente pelo fato de termos nascido no mesmo país. Parece uma bobagem, mas muita gente acha que os EUA só são a potencia que são por saberem bem identificar seus ídolos e usá-los como símbolo de força para unir seu povo.
E o que seria esse herói? Primeiramente alguém com notável talento em alguma atividade de destaque. Uma pessoa que demonstre competência no que faz, sem perder a humildade para admitir que é apenas mais um, mesmo não o sendo. Por essa razão que acho Guga uma personalidade fantástica, da mesma maneira que era Airton Senna. São seres que tornam o impossível apenas uma palavra, que constroem mundos lúdicos de possibilidades e nos fazem torcer para que o sucesso venha sempre, vibrando num ímpeto de fraternidade.
Um ídolo é feito pela sua torcida, não nasce da noite para o dia, mas tem dentro de si essa coisa a mais que o fará único. E é esse algo a mais que não vejo em Bellucci ou em qualquer outro candidato a herói nacional da atualidade. Infelizmente somos carentes dessa figura, desse alguém a admirar por carregar o país nas costas quando está competindo.
Essa relação é muito interessante de ser analisada também se retirada da esfera esportiva. Por exemplo, na política não queremos um ídolo, mas um líder. O leão a frente dos cordeiros se fosse utilizar uma parábola bíblica. E é estranho observar que, embora a maioria das pessoas que conheço (me incluindo entre elas) tenha perdido a fé no presidente Lula, milhões de pessoas mundo afora (e país adentro) admiram e aplaudem a sua figura. Isso porque ele é carismático e sabe conduzir sua própria imagem com diplomacia invejável. Coisa que aprendeu com os anos, sendo menos duro nas palavras e mais político no bom sentido, se é que existe um. Justamente por isso seu sucessor na presidência terá um grande problema na autogestão dessa figura emblemática à frente do país. O mesmo desafio que vejo em Bellucci por suceder Guga.
Mas no fim das contas, o que faz um ídolo ou um líder não são apenas suas atitudes, mas como já disse antes, aquilo que despertam em sua platéia. Se a psicanálise diz que somos, na verdade, uma imagem projetada nos outros, na realidade isso é muito mais palpável do que parece. Uma pessoa pública sempre será aquilo que despertar em seu público, seja lá isso bom ou ruim, e por conta dessa prática que é mais fácil tornar-se um vilão que ser visto como um herói.
Contextualizando: entre os dias 7 e 9 de maio a maior competição de equipes de tênis do mundo teve uma etapa realizada em Bauru, cidade na qual moro atualmente. Como trabalho em uma agência de comunicação, acabei ficando com uma parte da assessoria do evento, que teve a participação de grandes jogadores brasileiros, entre eles Thomaz Bellucci, atual 26º do ranking da ATP e número 1 do Brasil.
Bellucci reúne todas as qualidades que fazem dele um bom jogador, não é à toa que aos 22 anos já faturou mais de um milhão de dólares em prêmios. Contudo, tem alguma coisa nele que não encaixa com o perfil de um ídolo, coisa que o Brasil espera de um grande desportista. Aliás, coisa rara hoje em dia, acho que um dos últimos a honrar esse título foi Gustavo Kuerten, que também esteve em Bauru na Copa Davis e foi o motivo deste texto.
Tive contato com Guga por duas ou três vezes durante o final de semana, numa delas para dar recado do seu amigo Antonio Barbosa, ex-técnico da seleção brasileira feminina de basquete, que queria reencontrá-lo. Guga é sempre simpático, seja com os torcedores seja com a imprensa, mesmo disfarçando uma possível timidez. Já com Bellucci essa empatia não acontece, e percebe-se nele um desdenho para as coisas ao seu redor.
Quando me dei conta desse abismo, fiquei encucado com essa relação de herói e ídolo, que mantemos e esperamos de uma pessoa que nos dá orgulho simplesmente pelo fato de termos nascido no mesmo país. Parece uma bobagem, mas muita gente acha que os EUA só são a potencia que são por saberem bem identificar seus ídolos e usá-los como símbolo de força para unir seu povo.
E o que seria esse herói? Primeiramente alguém com notável talento em alguma atividade de destaque. Uma pessoa que demonstre competência no que faz, sem perder a humildade para admitir que é apenas mais um, mesmo não o sendo. Por essa razão que acho Guga uma personalidade fantástica, da mesma maneira que era Airton Senna. São seres que tornam o impossível apenas uma palavra, que constroem mundos lúdicos de possibilidades e nos fazem torcer para que o sucesso venha sempre, vibrando num ímpeto de fraternidade.
Um ídolo é feito pela sua torcida, não nasce da noite para o dia, mas tem dentro de si essa coisa a mais que o fará único. E é esse algo a mais que não vejo em Bellucci ou em qualquer outro candidato a herói nacional da atualidade. Infelizmente somos carentes dessa figura, desse alguém a admirar por carregar o país nas costas quando está competindo.
Essa relação é muito interessante de ser analisada também se retirada da esfera esportiva. Por exemplo, na política não queremos um ídolo, mas um líder. O leão a frente dos cordeiros se fosse utilizar uma parábola bíblica. E é estranho observar que, embora a maioria das pessoas que conheço (me incluindo entre elas) tenha perdido a fé no presidente Lula, milhões de pessoas mundo afora (e país adentro) admiram e aplaudem a sua figura. Isso porque ele é carismático e sabe conduzir sua própria imagem com diplomacia invejável. Coisa que aprendeu com os anos, sendo menos duro nas palavras e mais político no bom sentido, se é que existe um. Justamente por isso seu sucessor na presidência terá um grande problema na autogestão dessa figura emblemática à frente do país. O mesmo desafio que vejo em Bellucci por suceder Guga.
Mas no fim das contas, o que faz um ídolo ou um líder não são apenas suas atitudes, mas como já disse antes, aquilo que despertam em sua platéia. Se a psicanálise diz que somos, na verdade, uma imagem projetada nos outros, na realidade isso é muito mais palpável do que parece. Uma pessoa pública sempre será aquilo que despertar em seu público, seja lá isso bom ou ruim, e por conta dessa prática que é mais fácil tornar-se um vilão que ser visto como um herói.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Só um filme na memória
Era um homem de poucas palavras. Gostava mesmo das imagens, não se cansava de repetir o velho ditado de que elas valiam muito mais. “Coloca uma foto do assassino com a arma na mão na frente do juiz. Não adianta nem implorar”.
Com a sua filosofia seguia a vida atrás da câmera, uma Leica antiga, película, lente 50 milímetros fixa, herdada de um fotógrafo simpático que conhecera durante a segunda guerra mundial. Em relação a sua técnica, tinha orgulho de não usar de artifício nenhum para obter uma boa foto. “Bato sem flash, que é para não modificar a cena, se for para sair escura que saia!”. Era bodegueiro de profissão, mantinha no Bituva Papuã, lugar de onde só saiu para lutar na tomada de Monte Castelo, um bar pulguento daqueles com voltas de linguiça penduradas em cabos de vassoura cerrados. O ‘gole’ era barato e ele se divertia em ver as partidas acirradas de sinuca na mesa de fichas capenga. Os clientes habituais a chamavam de pirambeira.
Mas Zé, ou Tico, não importava como os bêbados o chamavam, era aficionado mesmo pela fotografia. Male mal sabia escrever, apenas o suficiente para anotar os nomes dos fiados. Fazia as contas sempre em pedaços de papel dos maços de cigarro abertos. E era bom de contas. Melhor ainda na sinuca, mas inigualável na fotografia. Já havia fotografado quilômetros de filme. Das crianças brincando no ribeirão ao corpo do João Cachaça, estirado no chão depois de uma briga de facas na festa da Igreja. Até hoje não se sabe por que Miguelzinho fez aquilo. Os dois eram companheiros de bar e de futebol.
A poucas pessoas era dado o direito de ver as fotografias. Dizia que eram o seu diário e por isso não gostava de muitos olhos. A revelação era feita em casa mesmo, num quarto puxado, feito das paredes que sustentavam a caixa d’água do bar. O processo era sempre seguido da mesma forma, como em um ritual sacro. Primeiro fecha a porta, veda bem para não vazar luz. Abre o rolo de filme, normalmente um ISO 400 preto e branco, desenrola e coloca no carretel. Previamente no revelador, depois o fixador, lava bem entre um e outro para não misturar a química. A ampliação era feita na cidade porque o velho ampliador já não funcionava mais.
Agregadas às muitas fotos estavam suas lembranças. O gol do Eliosmar na final do torneio de 74, chorado, de canela, mas que valeu a bebedeira de toda uma semana. A sua falecida mãe na máquina de costuras remendando as calças do pai. A irmã mais nova vestida de noiva momentos antes de entrar na igreja para casar com o Amauri, seu amigo de infância. Tantas eram as fotos que podia passar dias contando histórias ilustradas, mas em meio a todas havia uma mágoa. Um desrespeito que lhe custou a solidão.
Maria Clara era o nome da personagem, filha do Juca Preto, moça direita que o Zé (ou Tico) almejava desposar. A história nunca foi bem contada. Uns dizem que ela pediu uma foto em trajes íntimos por devaneio da idade, outros que ele forçou a amada a abrir-lhe a intimidade. Verdade mesmo é que a foto foi feita, numa tarde de primavera ao lado do tanque. A moça vestindo apenas uma flor atrás da orelha, cena que foi sumariamente interrompida pelo pai Juca, que saiu arrastando a filha pelos cabelos. Maria Clara nunca mais foi vista depois do episódio. Os pais a mandaram para um convento, lugar onde, segundo eles, seria possível conter o fogo pecaminoso que havia dominado a doce menina.
Daquele dia Zé (ou Tico) guarda apenas o negativo e a imagem na memória. Nunca comentou o fato e nem tampouco teve coragem de revelar o filme. Um retrato que guarda ainda virgem, longe dos olhos do mundo, igualzinho ao que fizeram com sua amada.
Com a sua filosofia seguia a vida atrás da câmera, uma Leica antiga, película, lente 50 milímetros fixa, herdada de um fotógrafo simpático que conhecera durante a segunda guerra mundial. Em relação a sua técnica, tinha orgulho de não usar de artifício nenhum para obter uma boa foto. “Bato sem flash, que é para não modificar a cena, se for para sair escura que saia!”. Era bodegueiro de profissão, mantinha no Bituva Papuã, lugar de onde só saiu para lutar na tomada de Monte Castelo, um bar pulguento daqueles com voltas de linguiça penduradas em cabos de vassoura cerrados. O ‘gole’ era barato e ele se divertia em ver as partidas acirradas de sinuca na mesa de fichas capenga. Os clientes habituais a chamavam de pirambeira.
Mas Zé, ou Tico, não importava como os bêbados o chamavam, era aficionado mesmo pela fotografia. Male mal sabia escrever, apenas o suficiente para anotar os nomes dos fiados. Fazia as contas sempre em pedaços de papel dos maços de cigarro abertos. E era bom de contas. Melhor ainda na sinuca, mas inigualável na fotografia. Já havia fotografado quilômetros de filme. Das crianças brincando no ribeirão ao corpo do João Cachaça, estirado no chão depois de uma briga de facas na festa da Igreja. Até hoje não se sabe por que Miguelzinho fez aquilo. Os dois eram companheiros de bar e de futebol.
A poucas pessoas era dado o direito de ver as fotografias. Dizia que eram o seu diário e por isso não gostava de muitos olhos. A revelação era feita em casa mesmo, num quarto puxado, feito das paredes que sustentavam a caixa d’água do bar. O processo era sempre seguido da mesma forma, como em um ritual sacro. Primeiro fecha a porta, veda bem para não vazar luz. Abre o rolo de filme, normalmente um ISO 400 preto e branco, desenrola e coloca no carretel. Previamente no revelador, depois o fixador, lava bem entre um e outro para não misturar a química. A ampliação era feita na cidade porque o velho ampliador já não funcionava mais.
Agregadas às muitas fotos estavam suas lembranças. O gol do Eliosmar na final do torneio de 74, chorado, de canela, mas que valeu a bebedeira de toda uma semana. A sua falecida mãe na máquina de costuras remendando as calças do pai. A irmã mais nova vestida de noiva momentos antes de entrar na igreja para casar com o Amauri, seu amigo de infância. Tantas eram as fotos que podia passar dias contando histórias ilustradas, mas em meio a todas havia uma mágoa. Um desrespeito que lhe custou a solidão.
Maria Clara era o nome da personagem, filha do Juca Preto, moça direita que o Zé (ou Tico) almejava desposar. A história nunca foi bem contada. Uns dizem que ela pediu uma foto em trajes íntimos por devaneio da idade, outros que ele forçou a amada a abrir-lhe a intimidade. Verdade mesmo é que a foto foi feita, numa tarde de primavera ao lado do tanque. A moça vestindo apenas uma flor atrás da orelha, cena que foi sumariamente interrompida pelo pai Juca, que saiu arrastando a filha pelos cabelos. Maria Clara nunca mais foi vista depois do episódio. Os pais a mandaram para um convento, lugar onde, segundo eles, seria possível conter o fogo pecaminoso que havia dominado a doce menina.
Daquele dia Zé (ou Tico) guarda apenas o negativo e a imagem na memória. Nunca comentou o fato e nem tampouco teve coragem de revelar o filme. Um retrato que guarda ainda virgem, longe dos olhos do mundo, igualzinho ao que fizeram com sua amada.
* Rafael Kondlatsch é jornalista e fotógrafo.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Mais uma do Dahmer
Mais uma tirinha sensacional do André Dahmer. Quer mais, só visitar a página do cara.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
domingo, 25 de outubro de 2009
Sermão do Padre Beto
Nessas semanas que estou em Bauru acabei por frequentar a Paróquia Universitária aqui perto de casa. A experiência foi melhor que eu esperava pela presença do Padre Beto, um profissional da religião como poucos que já vi. Interessante dar uma sacada nas prédicas que ele faz nas missas, sempre lotadas, não importando o calor insuportável dentro da Igreja.
O texto a seguir eu extraí do site dele www.padrebeto.com.br do sermão do último dia 25.
Mc 10, 46-52
A nossa vida é uma construção. Nós somos primeiro construídos, construídos pela nossa carga hereditária, pelo meio ambiente, pela educação que recebemos de nossos país, pela escola que freqüentamos, pelas experiências que vivenciamos nos primeiros anos de vida. A partir de um determinado momento começamos a nos transformar de construídos para construtores de nossa vida. À medida que vamos fazendo nossas próprias escolhas e tomando atitudes próprias vamos construindo nosso ser, nossa existência e modificando nosso meio ambiente. A letra “C” de construção representa visualmente este início. Ela já existe, mas é uma letra aberta. O que irá se desenvolver a partir desta abertura depende de nós e de nossa interação com as situações da vida. A força motora que nos move para a transformação de nosso ser e nos faz assumir a direção de nossa vida é o que chamamos de fé. Justamente este tema é trabalhado na passagem de Mc 10, 46-52. Nela encontramos duas posições importantíssimas. Em primeiro lugar, o cego Bartimeu grita para Jesus. Bartimeu não se acomoda em sua situação de cego e mendigo, ele vai além. Em seu grito está a força que o move para uma transformação. Bartimeu poderia se acomodar com justificativas do tipo: este é o meu destino, Deus quis assim... Mas não, Bartimeu grita. Em segundo lugar encontramos Jesus que houve a manifestação de Bartimeu e proclama algo fundamental: “Vai, a tua fé te curou!” Jesus poderia ter dito: “Vai, eu te curei, acredite em mim!” Jesus não se coloca acima de Bartimeu, mas procura curar a sua cegueira existencial. Procura esclarecer que a força que lhe curou foi sua fé, sua vontade profunda de mudança.
A fé, antes de mais nada, é algo que nos move para a transcendência, para um movimento que nos levar a ir além do que somos. Porém, desta fé é extremamente perigosa, pois, como os sentimentos, ela é a princípio cega. A fé pode estar depositada em qualquer conteúdo, seja este bom ou ruim. Hitler, por exemplo, foi um homem de muita fé. Tanta fé em sua ânsia de poder que acabou sendo um monstro perfeito e causando uma grande monstruosidade. Os mulçumanos que se mataram no famoso 11 de setembro ao se atirarem nas torres gêmeas foram homens de muita fé. E até hoje existem pessoas que depositam sua fé em conteúdos alienantes que fazem com que elas vivenciem uma verdadeira fuga da realidade. Justamente por isso que ganhamos Jesus como paradigma, como exemplo. Nele encontramos um conteúdo universal de direciona a nossa fé para a construção de vida para todos. Mas, é necessário compreender que direcionar a fé através deste conteúdo é possuir atitudes concretas de vida e através destas nos aproximamos da convivência de Deus. Nem todo aquele que diz “senhor, senhor” entrará no Reino dos Céus e uma fé sem obras é morta. A convivência com Deus, por sua vez, nos faz ver com mais profundidade o que deve ser modificado em nossa vida individual e social e assim vivemos uma “roda vida” que nos faz ser verdadeiros furacões que desconstroem o que está errado e constrói uma nova terra e um novo céu. A dialética do cristão é constante interação entre atitudes concretas e a convivência de Deus alimentando nossa fé na construção de um mundo mais justo e mais fraterno.
O texto a seguir eu extraí do site dele www.padrebeto.com.br do sermão do último dia 25.
Mc 10, 46-52
A nossa vida é uma construção. Nós somos primeiro construídos, construídos pela nossa carga hereditária, pelo meio ambiente, pela educação que recebemos de nossos país, pela escola que freqüentamos, pelas experiências que vivenciamos nos primeiros anos de vida. A partir de um determinado momento começamos a nos transformar de construídos para construtores de nossa vida. À medida que vamos fazendo nossas próprias escolhas e tomando atitudes próprias vamos construindo nosso ser, nossa existência e modificando nosso meio ambiente. A letra “C” de construção representa visualmente este início. Ela já existe, mas é uma letra aberta. O que irá se desenvolver a partir desta abertura depende de nós e de nossa interação com as situações da vida. A força motora que nos move para a transformação de nosso ser e nos faz assumir a direção de nossa vida é o que chamamos de fé. Justamente este tema é trabalhado na passagem de Mc 10, 46-52. Nela encontramos duas posições importantíssimas. Em primeiro lugar, o cego Bartimeu grita para Jesus. Bartimeu não se acomoda em sua situação de cego e mendigo, ele vai além. Em seu grito está a força que o move para uma transformação. Bartimeu poderia se acomodar com justificativas do tipo: este é o meu destino, Deus quis assim... Mas não, Bartimeu grita. Em segundo lugar encontramos Jesus que houve a manifestação de Bartimeu e proclama algo fundamental: “Vai, a tua fé te curou!” Jesus poderia ter dito: “Vai, eu te curei, acredite em mim!” Jesus não se coloca acima de Bartimeu, mas procura curar a sua cegueira existencial. Procura esclarecer que a força que lhe curou foi sua fé, sua vontade profunda de mudança.
A fé, antes de mais nada, é algo que nos move para a transcendência, para um movimento que nos levar a ir além do que somos. Porém, desta fé é extremamente perigosa, pois, como os sentimentos, ela é a princípio cega. A fé pode estar depositada em qualquer conteúdo, seja este bom ou ruim. Hitler, por exemplo, foi um homem de muita fé. Tanta fé em sua ânsia de poder que acabou sendo um monstro perfeito e causando uma grande monstruosidade. Os mulçumanos que se mataram no famoso 11 de setembro ao se atirarem nas torres gêmeas foram homens de muita fé. E até hoje existem pessoas que depositam sua fé em conteúdos alienantes que fazem com que elas vivenciem uma verdadeira fuga da realidade. Justamente por isso que ganhamos Jesus como paradigma, como exemplo. Nele encontramos um conteúdo universal de direciona a nossa fé para a construção de vida para todos. Mas, é necessário compreender que direcionar a fé através deste conteúdo é possuir atitudes concretas de vida e através destas nos aproximamos da convivência de Deus. Nem todo aquele que diz “senhor, senhor” entrará no Reino dos Céus e uma fé sem obras é morta. A convivência com Deus, por sua vez, nos faz ver com mais profundidade o que deve ser modificado em nossa vida individual e social e assim vivemos uma “roda vida” que nos faz ser verdadeiros furacões que desconstroem o que está errado e constrói uma nova terra e um novo céu. A dialética do cristão é constante interação entre atitudes concretas e a convivência de Deus alimentando nossa fé na construção de um mundo mais justo e mais fraterno.
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